Charles Ives

Acho que a melhor fonte de informação sobre Ives em português é o livro de Valerie Albright, que faz uma síntese da bibliografia norte-americana sobre o compositor, e traz interessantes avaliações sobre sua biografia, seu papel na música norte-americana e sua influência nas vanguardas pós-45. Faz também um mapeamento das tendências e abordagens analíticas da obra do compositor.

O livro está à venda aqui, por uma pechincha.

O compositor que emerge da leitura do livro é uma figura muito polêmica e deveras interessante.

Nasceu em 1874 em Danbury, Connecticut, na Nova Inglaterra – região que centralizou uma produção cultural das mais vivas e significativas dos EUA.

Charles estudou música com o pai, que era professor de música e maestro de banda. Em seus escritos e memórias, que foram posteriormente organizados e estudados por vários biógrafos, Charles Ives atribui papel preponderante a seu pai em sua formação. Afirma que foi com ele que teve as principais experiências de aprendizado e, especialmente, de desenvolvimento de uma abordagem inusitada.

Aqui uma questão curiosa: alguns estudiosos estão ressaltando que os relatos de Charles Ives sobre a importância de seu pai na sua formação são evidentemente exagerados, e trazem uma intenção clara de passar uma visão de si mesmo como um músico autoditada, que aprendeu fora das grandes instituições musicais, e por isso teria sido capaz de imaginar uma música radicalmente nova, bem antes de outros músicos. Essa mistificação de seu passado e de seu período de formação traz muitos paralelos com o caso de Villa-Lobos no Brasil, que viveu na mesma época e teve atitudes parecidas.

Verdade ou exagero, Charles Ives conta que seu pai fazia experiências com duas bandas tocando ao mesmo tempo e desfilando pelas ruas de Danbury, criando um efeito estereofônico que o compositor reproduziu mais tarde no segundo movimento de sua peça Tree places in New England, entitulado Putnam’s Camp. Ouça o efeito:

Mas, apesar de tentar passar a imagem de um autodidata exótico, Charles Ives estudou entre 1894 e 1898 na Universidade de Yale, em New Haven, no seu estado natal de Connecticut. Lá freqüentou a classe do compositor Horatio Parker, o qual é lembrado em suas memórias como alguém excessivamente preso à tradição germânica e pouco aberto às experiências de vanguarda que Charles Ives gostava de praticar. O fato é que Parker teve um papel muito importante no desenvolvimento da técnica composicional de Ives, especialmente em suas habilidades de orquestração. Foi sob orientação de Parker que Ives compôs sua Primeira Sinfonia – uma obra trabalhada como exercício de composição, e da qual Ives se queixa de que Parker o mandou reescrever movimentos inteiros e manter-se mais “comportado” em relação às tonalidades.

Isso porque as técnicas composicionais privilegiadas por Ives envolveram, quase sempre, efeitos heterodoxos como modulações distantes, sobreposição de tonalidades (poli-tonalismo),  citações e colagens de canções populares, marchas militares e hinos religiosos.

Aliás, logo após formar-se em Yale, Ives decidiu que não gostaria de ser compositor profissional, justamente por achar que o meio musical seria muito conservador e pouco afeito às suas experiências. Suas memórias relatam também o efeito negativo em sua personalidade causado pelas reações hostis da população de Danbury às experiências malucas de seu pai.

Transferindo-se para Nova York em 1898, Charles Ives tornou-se sócio em uma Companhia de Seguros, negócio que lhe garantiu sucesso financeiro. Paralelamente ao trabalho em sua empresa, foi organista da igreja Presbiteriana. A partir de 1902 deixou o trabalho na igreja e passou a dedicar suas horas vagas ao trabalho frenético de composição, com o que se ocupou entre 1902 e 1918. Neste ano teve um infarto, provavelmente por excesso de trabalho, o que o levou a parar a frenética atividade de composição e começar a se preocupar em divulgar sua música já composta.

Essa característica do trabalho composicional solitário marcou muito o papel de Ives na música norte-americana. A maior parte da sua produção foi realizada neste período solitário, durante o qual Ives não publicou nem estreou obras em público. Isso torna difícil fazer datações precisas ou estabelecer critérios sobre sua técnica composicional, pois Ives revisou diversas vezes suas obras, a maioria das quais tem muitas versões diferentes e a versão final acaba sendo muito tardia.

Nesse sentido, algumas datações podem ter sido feitas para atender ao objetivo de apresentar-se como pioneiro em técnicas de vanguarda. Em suas memórias Ives comenta ter ouvido obras de Stravinsky apenas em 1918, mas sua esposa Harmony, com quem se casou em 1908, testemunhou que ele já ouvia Stravinsky desde muito antes. Curiosa aqui, novamente, a semelhança com a trajetória de Villa-Lobos.

A partir de 1918, com os fartos recursos de que dispunha dos seus negócios na área de seguros, Ives começou a financiar a publicação de suas obras, e enviar partituras a possíveis intérpretes, bem como a críticos de música. Esse expediente demorou a dar resultado, pois a maioria das pessoas que recebia as partituras demonstrava pouco interesse por elas.

Por exemplo, a sua segunda sonata para piano, Concord Sonata, demorou muitos anos para ser executada. Concluída em 1915, apenas em 1939 John Kirckpatrick foi capaz de executá-la inteira em concerto. A peça tem este nome por causa da cidade de Concord, Massachussets, também na Nova Inglaterra, onde trabalharam alguns importantes intelectuais aos quais Ives dedica a peça, dando-lhes os nomes aos movimentos: I. Emerson; II. Hawthorne; III. os Alcott; IV. Thoreau.

Ouça o primeiro movimento:

A execução dessa obra em Nova York por Kirckpatrick despertou a atenção de Lawrence Gilman, um dos críticos mais influentes dos EUA, cujo texto para o New York Herald Tribune, em 21 de janeiro de 1939, classificou a música de Ives como a “melhor já escrita por um compositor norte-americano”.

Antes disso, a música do compositor vinha chamando a atenção apenas de colegas vanguardistas como Henry Cowell ou Aron Copland, os primeiros a encontrarem valor no pioneirismo de Ives e a promoverem a execução de sua música.

John Kirckpatrick, o intéprete da inusitada Concord Sonata, tornou-se também um pesquisador da obra de Ives, e um dos primeiros a tentar enfronhar-se nas suas confusas anotações, manuscritos e memórias, que hoje compõe a Ives Collection da Universidade de Yale – um material que vem servindo de estudos desde a década de 1960. Cowell também foi um importante pesquisador, e autor da primeira biografia publicada do compositor.

Outro evento importante na vida musical norte-americana foi a execução da Terceira Sinfonia de Ives, em 1947, que lhe valeu o prestigioso Prêmio Pullitzer de Música, em sua 5ª edição. Ives contava então com 72 anos, e já tinha parado de compor havia praticamente 30 anos.

Até hoje a tragetória artística de Ives permanece envolta em mistério, mas não há dúvida que ele se tornou o personagem mais influente para as gerações de compositores que se depararam com o desafio de fazer música contemporânea nos EUA a partir da década de 1930.

Como bem explicou Alex Ross, no capítulo “Homens invisíveis: compositores americanos, de Ives a Ellington” em seu livro O resto é ruído (em promoção aqui) – o peso da cultura européia era tão forte nos EUA que era difícil aos novos compositores concorrer com Beethoven. Nessa disputa inglória, Ives foi, certamente o maior herói.

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Sobre André Egg

Músico, historiador e crítico. Professor da UNESPAR/FAP. Doutor em História Social pela USP.
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3 respostas para Charles Ives

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