A invenção do fonograma

Não sei se houve alguma invenção que tenha causado maior transformação na vida das pessoas, que tenha marcado mais o século XX.

A existência do fonograma (e todos os sistemas derivados de reprodução automática de música) mudou completamente a maneira de se produzir, ouvir, difundir e pensar a música.

Parece que o primeiro dispositivo capaz de registrar o som de forma mecânica foi o fonoautógrafo de Martinville, projetado em 1857 pelo inventor francês.

Mas este equipamento fazia apenas um registro gráfico do som. Ele não era reprodutível. Uma membrana movimentava-se sob as vibrações do ar dentro do barril, transformando os sons produzindos na sua entrada em um “risco” no cilindro. O verbete da wikipedia em inglês tem lá a reconstituição de como seria o som gravado desta forma, que foi feita por meio de um programa de computador por pesquisadores a partir de um registro gráfico depositado por Martinville no processo de patente de seu aparelho.

Talvez este invento tenha sido mais um daquelas muitas engenhocas sem grande aplicação. Mas foi claramente a partir desta idéia que surgiu um outro equipamento um pouco mais avançado: o fonógrafo de Edison.

Um pouco além do registro gráfico de Martinville, o equipamento de Edison era capaz de reproduzir sons. O som captado mecanicamente agora provocava sulcos num cilindro de material maleável. O cilindro assim sensibilizado, poderia depois ser usado em um dispositivo capaz de fazer o procedimento inverso: transformar o sulco do cilindro novamente em som. O equipamento capaz de fazer isso deveria ter, ao invés de um dispositivo que captasse a vibração provocando um sulco, uma espécie de corneta, que amplificaria o som provocado a partir do sulco já gravado previamente no cilindro.

O invento foi anunciado por Edison em 1877 e patenteado em 1878. Agora, seria possível gravar e reproduzir sons. Mas o equipamento de Edison ainda tinha uma limitação importante: o cilindro não era passível de ser copiado em larga escala. Isso significa que seu sistema de gravação era imaginado para uma espécie de correio de voz. Cada evento sonoro gravado estaria disponível em um único original, não copiável.

Os usos imaginados para este equipamento podem ser deduzidos de anúncios como este:

A verdadeira revolução musical ocorreria quando alguém inventasse uma maneira de o som gravado ser copiado com exatidão inúmeras vezes. Ou seja, era necessário uma máquina que pudesse produzir ilimitadas cópias do mesmo fonograma. Isso foi possibilitado pelo invento de Berliner, um alemão que emigrou para os EUA. Ele começou a trabalhar nessas novas tecnologias de equipamentos de som, e seu primeiro invento foi um tipo de microfone, cuja patente foi comprada pela indústria de telefones. Depois de trabalhar entre 1877 e 1883 na Bell Telephone Company ele tornou-se inventor autônomo. Sua primeira patente de gramofone foi registrada em 1887. Em 1888 ele aprimorou o sistema de gravação, substituindo o cilindro por um disco.

Um disco pode ser feito em uma matriz de cera, a qual pode ser envolta em metal criando uma “forma” que depois será usada para fazer inúmeras cópias da matriz daquele som registrado mecanicamente. Estava criada o sistema de gravação reprodução que daria início à indústria fonográfica. Incialmente fabricando toca-discos como brinquedos (cuja qualidade de som era inferior até mesmo ao cilindro de Edison), em 1895 Breliner conseguiu juntar investidores que inciaram uma fábrica de discos.

O equipamento de Berliner ainda tinha um sério problema: não era capaz de rodar o disco em velocidade constante, causando distorções horríveis que inviabilizavam o uso musical do equipamento. Isso por que o disco era movido manualmente por uma manivela.

O problema seria solucionado pelo engenheiro Eldridge Johnson, que inventou um mecanismo capaz de movimentar o disco com a mesma precisão de um relógio. O resultado seria a tecnologia capaz de fazer do disco de música um produto comercialmente viável. Em 1901, Berliner e Johnson tornaram-se sócios na Victor Talking Machine, a primeira indústria do disco.

Abaixo, a imagem de Berliner examinando um disco em seu laboratório:

No alvorecer do século XX, todo um mundo novo de possibilidades se abriria. Assustadoramente novo. Pela primeira vez na história, as pessoas poderiam ouvir música sem estar diante de alguém que a executasse. Coincidiu com a explosão demográfica nos grandes centros urbanos, as massas de trabalhadores pobres vivendo em condições precárias de existência, com uma forte demanda por divertimento barato. Um disco podia ser comprado por centavos. Era um dos melhores jeitos de acalmar a existência.

Músicos de vários cantos estavam disponíveis para gravar suas canções despretenciosas. Aquele tipo de música “reles”, que outrora se perdia nas cadeias da transmissão oral, agora assumia o mesmo status de perenidade das músicas que ao longo dos últimos mil anos vinham sendo registradas em partituras na Europa.

É neste sentido que o século XX se configura como o século da música, e este assunto, aliás, ainda vai render muitos textos por aqui.

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As informações e imagens contidas neste texto vieram das seguintes fontes:

Inventos ingeniosos – El fonógrafo. Texto do professor espanhol Pedro Gómez-Esteban no blog El Tamiz.

Os verbetes para Fonógrafo, Fonoautógrafo, Emile Berliner, Berliner Gramophone e Eldridge Johnson da wikipedia em língua inglesa.

O acervo fotográfico de Berliner disponibilizado pela Library of Congress de Washington. (procure pelo item 12 neste link)

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Leia também, sobre assunto correlato:

Cadillac Records

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Sobre André Egg

Músico, historiador e crítico. Professor da UNESPAR/FAP. Doutor em História Social pela USP.
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6 respostas para A invenção do fonograma

  1. Pingback: Tweets that mention A invenção do fonograma « O século da música -- Topsy.com

  2. Pingback: Um blog sobre a música do século XX | Um drible nas certezas

  3. Luciano Heffner disse:

    Parabéns! Belo trabalho.

  4. Pingback: Sobre o surgimento do fonograma | André Egg

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