Não vou mais atualizar este blog

Eu já postei um bocado de coisa aqui para ajudar a formar material de apoio para as aulas de Música Contemporânea na FAP.

Acontece que não está mais valendo a pena ficar com vários blogs em endereços diferentes (no caso do wordpress, era praticamente um para cada matéria). Resolvi então juntar tudo num endereço próprio, que terá uma página de Música Contemporânea e posts sobre os assuntos relativos a isso.

Só lamento não continuar usando este nome. O século da música era um bom título, não? Quem sabe não vira livro, um dia…

 

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Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.900 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Alguns vídeos (diluição da fronteira entre erudito e popular)

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Minimalismo: alguns vídeos

Terry Riley, In C (1964)

Steve Reich, Piano phase (1967)

Steve Reich, Clapping music (1972)

Philip Glass, Music in 12 parts (1971-74). Aqui apenas um trecho da obra, que tem 4 horas de duração total:

Steve Reich, Eletric counterpoint (1987) – obra composta para o guitarrista de jazz Pat Metheny, que fez a gravação. Abaixo o terceiro movimento – III. Fast

 

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Sobre o surgimento do Rock

Parece que o Rock surgiu a partir de alguns movimentos.

Primeiro, os folcloristas/comunistas norte-americanos, como Allan Lomax e Charles Seeger começaram aqueles projetos de catalogação de canções. A Library of Congress fez uma mega-coleção desse tipo de coisa.

O filme Cadillac Records parte disso, mostrando Muddy Waters sendo gravado por Lomax no interior poeirento, o que o teria levado a migrar para Chicago. Lá ele começou a gravar discos, a partir do trabalho pioneiro de Leonard Chess, um empresário do ramo de ferro velho que percebeu que gravar artistas negros poderia ser um bom negócio.

O filme citado é uma ótima história sobre a gravadora, seus primeiros artistas, os conflitos da entrada dos artistas negros neste grande mercado, entre outras coisas. Veja meu comentário sobre o filme.

Seguindo a pista dada por Friedlander em Rock and Roll: uma história social (em promoção aqui)

Os primeiros artistas negros de Rythm and Blues lançaram diversos sucessos pelas Race Records – especialmente Chess Records e Atlantic Records. Os artistas negros emplacavam sucessos apenas medianos, sendo superados em muito pelos covers brancos como Pat Boone ou Elvis Presley.

Esse primitivo rock norte-americano deve ter sido o primeiro gênero musical a nascer já intimamente ligado à televisão, num misto de importância entre o show ao vivo, a gravação em disco e a performance televisiva. Por isso, é interessante acompanhar esta música em vídeo.

Alguns vídeos estão num texto que escrevi sobre a importância do Rock na música do século XX, para o Amálgama.

Mas, discordando um pouco do Friedlander, eu não diria que aí já está o Rock. O que ele chama de “invasão inglesa” é o que eu chamaria propriamente de Rock, quando adolescentes britânicos, fãs destes músicos negros norte-americanos, superaram algumas fronteiras e deram um acabamento mais fino ao Rock. Entre os diversos aspectos que se pode destacar, a separar os jovens britânicos de cantores como Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Bill Halley ou Elvis Presley, está a primordial noção de Rock como uma música de bandas, não de artistas individuais acompanhados por “cometas” ou quetais.

Nisso, não se pode deixar de atribuir papel pioneiro a Beatles, Rolling Stones e The Who.

Abaixo três vídeos paradigmáticos:

Os Beatles no programa de televisão de Ed Sullivan, em fevereiro de 1964, marcando sua entrada no mercado norte-americano, que transformou a banda num mega-sucesso comercial.

Rolling Stones em Satisfaction, em filmagem de 1965 do hit que garantiu o estabelecimento da banda nos EUA e no mundo.

The Who em uma filmagem de 1967 em um show em clube noturno de Londres, da música My Generation, seu primeiro grande hit. Nesta performance, até que estão comportados. Desde 1965 a banda já era conhecida por destruir instrumentos/equipamentos durante os shows.

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Charles Ives

Acho que a melhor fonte de informação sobre Ives em português é o livro de Valerie Albright, que faz uma síntese da bibliografia norte-americana sobre o compositor, e traz interessantes avaliações sobre sua biografia, seu papel na música norte-americana e sua influência nas vanguardas pós-45. Faz também um mapeamento das tendências e abordagens analíticas da obra do compositor.

O livro está à venda aqui, por uma pechincha.

O compositor que emerge da leitura do livro é uma figura muito polêmica e deveras interessante.

Nasceu em 1874 em Danbury, Connecticut, na Nova Inglaterra – região que centralizou uma produção cultural das mais vivas e significativas dos EUA.

Charles estudou música com o pai, que era professor de música e maestro de banda. Em seus escritos e memórias, que foram posteriormente organizados e estudados por vários biógrafos, Charles Ives atribui papel preponderante a seu pai em sua formação. Afirma que foi com ele que teve as principais experiências de aprendizado e, especialmente, de desenvolvimento de uma abordagem inusitada.

Aqui uma questão curiosa: alguns estudiosos estão ressaltando que os relatos de Charles Ives sobre a importância de seu pai na sua formação são evidentemente exagerados, e trazem uma intenção clara de passar uma visão de si mesmo como um músico autoditada, que aprendeu fora das grandes instituições musicais, e por isso teria sido capaz de imaginar uma música radicalmente nova, bem antes de outros músicos. Essa mistificação de seu passado e de seu período de formação traz muitos paralelos com o caso de Villa-Lobos no Brasil, que viveu na mesma época e teve atitudes parecidas.

Verdade ou exagero, Charles Ives conta que seu pai fazia experiências com duas bandas tocando ao mesmo tempo e desfilando pelas ruas de Danbury, criando um efeito estereofônico que o compositor reproduziu mais tarde no segundo movimento de sua peça Tree places in New England, entitulado Putnam’s Camp. Ouça o efeito:

Mas, apesar de tentar passar a imagem de um autodidata exótico, Charles Ives estudou entre 1894 e 1898 na Universidade de Yale, em New Haven, no seu estado natal de Connecticut. Lá freqüentou a classe do compositor Horatio Parker, o qual é lembrado em suas memórias como alguém excessivamente preso à tradição germânica e pouco aberto às experiências de vanguarda que Charles Ives gostava de praticar. O fato é que Parker teve um papel muito importante no desenvolvimento da técnica composicional de Ives, especialmente em suas habilidades de orquestração. Foi sob orientação de Parker que Ives compôs sua Primeira Sinfonia – uma obra trabalhada como exercício de composição, e da qual Ives se queixa de que Parker o mandou reescrever movimentos inteiros e manter-se mais “comportado” em relação às tonalidades.

Isso porque as técnicas composicionais privilegiadas por Ives envolveram, quase sempre, efeitos heterodoxos como modulações distantes, sobreposição de tonalidades (poli-tonalismo),  citações e colagens de canções populares, marchas militares e hinos religiosos.

Aliás, logo após formar-se em Yale, Ives decidiu que não gostaria de ser compositor profissional, justamente por achar que o meio musical seria muito conservador e pouco afeito às suas experiências. Suas memórias relatam também o efeito negativo em sua personalidade causado pelas reações hostis da população de Danbury às experiências malucas de seu pai.

Transferindo-se para Nova York em 1898, Charles Ives tornou-se sócio em uma Companhia de Seguros, negócio que lhe garantiu sucesso financeiro. Paralelamente ao trabalho em sua empresa, foi organista da igreja Presbiteriana. A partir de 1902 deixou o trabalho na igreja e passou a dedicar suas horas vagas ao trabalho frenético de composição, com o que se ocupou entre 1902 e 1918. Neste ano teve um infarto, provavelmente por excesso de trabalho, o que o levou a parar a frenética atividade de composição e começar a se preocupar em divulgar sua música já composta.

Essa característica do trabalho composicional solitário marcou muito o papel de Ives na música norte-americana. A maior parte da sua produção foi realizada neste período solitário, durante o qual Ives não publicou nem estreou obras em público. Isso torna difícil fazer datações precisas ou estabelecer critérios sobre sua técnica composicional, pois Ives revisou diversas vezes suas obras, a maioria das quais tem muitas versões diferentes e a versão final acaba sendo muito tardia.

Nesse sentido, algumas datações podem ter sido feitas para atender ao objetivo de apresentar-se como pioneiro em técnicas de vanguarda. Em suas memórias Ives comenta ter ouvido obras de Stravinsky apenas em 1918, mas sua esposa Harmony, com quem se casou em 1908, testemunhou que ele já ouvia Stravinsky desde muito antes. Curiosa aqui, novamente, a semelhança com a trajetória de Villa-Lobos.

A partir de 1918, com os fartos recursos de que dispunha dos seus negócios na área de seguros, Ives começou a financiar a publicação de suas obras, e enviar partituras a possíveis intérpretes, bem como a críticos de música. Esse expediente demorou a dar resultado, pois a maioria das pessoas que recebia as partituras demonstrava pouco interesse por elas.

Por exemplo, a sua segunda sonata para piano, Concord Sonata, demorou muitos anos para ser executada. Concluída em 1915, apenas em 1939 John Kirckpatrick foi capaz de executá-la inteira em concerto. A peça tem este nome por causa da cidade de Concord, Massachussets, também na Nova Inglaterra, onde trabalharam alguns importantes intelectuais aos quais Ives dedica a peça, dando-lhes os nomes aos movimentos: I. Emerson; II. Hawthorne; III. os Alcott; IV. Thoreau.

Ouça o primeiro movimento:

A execução dessa obra em Nova York por Kirckpatrick despertou a atenção de Lawrence Gilman, um dos críticos mais influentes dos EUA, cujo texto para o New York Herald Tribune, em 21 de janeiro de 1939, classificou a música de Ives como a “melhor já escrita por um compositor norte-americano”.

Antes disso, a música do compositor vinha chamando a atenção apenas de colegas vanguardistas como Henry Cowell ou Aron Copland, os primeiros a encontrarem valor no pioneirismo de Ives e a promoverem a execução de sua música.

John Kirckpatrick, o intéprete da inusitada Concord Sonata, tornou-se também um pesquisador da obra de Ives, e um dos primeiros a tentar enfronhar-se nas suas confusas anotações, manuscritos e memórias, que hoje compõe a Ives Collection da Universidade de Yale – um material que vem servindo de estudos desde a década de 1960. Cowell também foi um importante pesquisador, e autor da primeira biografia publicada do compositor.

Outro evento importante na vida musical norte-americana foi a execução da Terceira Sinfonia de Ives, em 1947, que lhe valeu o prestigioso Prêmio Pullitzer de Música, em sua 5ª edição. Ives contava então com 72 anos, e já tinha parado de compor havia praticamente 30 anos.

Até hoje a tragetória artística de Ives permanece envolta em mistério, mas não há dúvida que ele se tornou o personagem mais influente para as gerações de compositores que se depararam com o desafio de fazer música contemporânea nos EUA a partir da década de 1930.

Como bem explicou Alex Ross, no capítulo “Homens invisíveis: compositores americanos, de Ives a Ellington” em seu livro O resto é ruído (em promoção aqui) – o peso da cultura européia era tão forte nos EUA que era difícil aos novos compositores concorrer com Beethoven. Nessa disputa inglória, Ives foi, certamente o maior herói.

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Jazz – o documentário de Ken Burns

Acho que andou saindo de novo, agora apenas importado, e com 10 ou 12 DVD’s a um preço exorbitante. Eu comprei quando ainda existia a versão pagável lançada no Brasil pela Som Livre – um box com 4 DVD’s e um total de 12 episódios que agora estão disponíveis aqui.

Vale muito a pena ver, por causa da cuidadosa edição de imagens (fotografias e filmes da época), áudios (as principais gravações históricas), depoimentos de críticos, jornalistas e músicos.

O trabalho contou com a consultoria principal de Winton Marsalis, o que significa um viés dixieland ou revival. O time de comentaristas é unânime em adotar aquelas visões mitificadoras, o negócio todo de glorificar heróis e omitir da história o fato de que os caras eram uns malditos e que o jazz só ganhou respeitabilidade no meio cultural norte-americano muito a posteriori (meio parecido com o que aconteceu com o samba no Brasil, que tem uma historiografia semelhante).

Sempre recomendo como antídoto a leitura do História Social do Jazz, de Hobsbawn, que apesar de ter mais de 50 anos da primeira publicação, continua sendo a principal referência disponível em português para uma abordagem histórica crítica e fundamentada sobre o jazz. Tem o livro pra vender por aí.

É importante especialmente para não comprar essa ideologia toda de uma pureza original em um passado distante, uma origem geográfica claramente definida, visões mistificadoras da improvisação como forma superior de criação, entre outras coisinhas.

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